Quando a geada ameaça a planície, este meu arrebitado nariz congela. A geada é minha razão ser. A História é meu escudo e minha lança. À espera de um longo e rigoroso inverno, escrevo. Eu sou Nariz Gelado.
NOTÍCIAS
 Fonte:Estadão
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Quarta-feira, Junho 30, 2004
Vitória da democracia yankee: imprensa nacional sem pauta.
Há choro e ranger de dentes nas salas de imprensa do Brasil.
Isto porque, de uma semana para cá, tem sido mais difícil manter aquele jogralzinho anti-americanista que embalou os devaneios do jornalismo tupiniquim.
Após restabelecer a soberania iraquiana, os EUA acabam de entregar Saddam aos órgãos jurídicos daquele país. Não bastasse isso - e a brilhante estratégia de antecipação da entrega de poder, que fez de bobos tanto os terroristas quanto a imprensa -, também internamente a terra de Tio Sam dá mostras de vigor: revogado por ocasião dos atentados em 11 de setembro de 2001 - e pelo estado de guerra que seguiu a eles - o Estado direito de Direito volta a funcionar no país. Tal retorno, decidido pela Suprema Corte, garante à qualquer pessoa detida a chance de fazer-se ouvir na Justiça. E isto se aplica a americanos ou estrangeiros - inclusive aqueles detidos em Guantánamo.
Sinais tão claros de um retorno à normalidade por parte dos EUA não serão bem recebidos, já que esvaziam a pauta internacional da imprensa brasileira - engajada, desde 2001, na maior campanha xenófoba que este país já viu. Esquecidos de como é trabalhar sem ter um inimigo previamente eleito, nossos jornalistas devem estar todos à roer unhas.
Mas eu não diria que é caso para desespero.
Sempre é possível dar conotações jocosas às vitórias daqueles que invejamos.
Assim, à exemplo do que vem acontecendo com a devolução da soberania ao Iraque, as próximas pautas deverão falar do "golpe publicitário eleitoral" por trás da entrega de Saddam. Igualmente, a decisão da Suprema Corte será encarada como uma "derrota do governo Bush". Que tal decisão tenha sido concomitante ao fim do estado de guerra - numa clara alusão de que está em sintonia com as decisões governamentais - não passará pela cabeça dos nossos jornalistas.
Há também, é claro, aquela estratégia mais sofisticada de dar destaque a qualquer norteamericano que se disponha a falar mal de seu próprio país - trunfo largamente utilizado nos últimos três anos, que produziu ícones tão falaciosos quanto Michael Moore. Desde 2001, fomos invadidos por uma multidão de ilustres desconhecidos, cujas obras anteriores - quando existiam - não haviam merecido qualquer atenção, mas que agora eram guindados ao patamar de "grandes especialistas", pelo simples fato de criticarem a política norte-americana, Bush ou o american way of life.
Tão empenhada nesta campanha xenófoba esteve a nossa imprensa, que jamais deu-se conta de um preceito básico do jornalismo: a repetição insistente de um discurso não é notícia. Notícia é conflito, incoerência e ruptura.
Pode meter o nariz:
Terça-feira, Junho 22, 2004
Morreu o Brizola.
E morre, com ele, a minha infância política.
Tanto aquela em que eu, embaixo de uma parreira, ouvia meu avô narrar as estripulias da legalidade, quanto aquela outra "infância política" - mais longa e subjetiva - que me fazia acreditar que um bom líder salvaria este país.
Pois havia algo de messiânico em sua figura.
Deste messianismo, talvez só possam entender aqueles gaúchos que cresceram durante o seu exílio. Aqueles que, pelo desafio da oralidade familiar ao silêncio ditatorial, aprenderam a aguardar o "advento" de seu retorno.
Recém feita eleitora, jamais me filiei ao PDT, poucas vezes concordei com o Brizola, mas sempre acabava votando nele.
Era visceral.
Minhas mais sofisticadas faculdades intelectuais não eram páreo para aquele olhar vivaz, para aquela voz melodiosa que se arrastava em longos e apaixonados discursos. Meus adolescentes conhecimentos políticos se viam evaporados tão logo ele começasse sua defesa em prol das criancinhas e da educação.
Nunca eleito presidente, em eterna e confortável posição de denúncia, Brizola cumpria à risca o seu papel de demolidor, apontando os erros onde quer que os percebesse. Messias jamais concretizado, contentou-se em ser uma espécie de João Batista: voz solitária a clamar num deserto de hipocrisia e imoralidade política.
E era exatamente isto que, à certa altura, passei a esperar dele.
Isso... e que fizesse enlouquecer os mediadores de debates que, em vão, tentassem lhe interromper a fala.
Que soem os alarmes no segundo andar: está chegando um incorrigível sedutor.
Se ninguém tomar providências, os anjos vão todos virar brizolistas.
Pode meter o nariz:
Sexta-feira, Junho 18, 2004
O exemplo de Uberaba.
Em Uberaba, cadidatos a cargos políticos municipais tiveram que prestar exame para comprovar que são minimamente capazes de escrever, ler e interpretar corretamenta o conteúdo lido.
Acho a iniciativa louvável e fiquei me perguntando porque ainda não se tornou lei para todo o território nacional. Parece que este é um daqueles casos em que a norma pode ser diferente para cada município.
Pois já é hora de algum desocupado lá do Congresso entrar com um projeto de lei que normatize a coisa.
E a festa caipira, hein?
Esta é velha, mas não posso deixar passar: que coisa mais ridícula! Só espero que, no próximo Carnaval, não sejamos brindados com a lamentável cena da Marisa saindo de madrinha de alguma bateria. Há muitas coisas que, à despeito de pertencerem a cultura popular, deveriam ser evitadas pelo presidente e a patroa. Mas ao longo dessa semana já se falou tudo o que era possível sobre o tema. Apenas queria registrar aqui a minha indignação...
Sobre o blog
Sei que tenho escrito pouco. Para mim, esta época do ano é sempre atribulada. Já cogitei até em tirar o blog do ar, porque acho chato não atualizá-lo com mais freqüência. Ou, talvez, devesse assumir de vez que ele é semanal. Não sei. Continuo pensando.
Pode meter o nariz:
Segunda-feira, Junho 07, 2004
"What if..?"
Neste último final de semana, durante as comemorações do "Dia D", algumas matérias jornalísticas faziam alusão ao fato de que , tivesse a Europa Ocidental esperado mais um pouco, os russos poderiam ter ganho a II Guerra Mundial - mudando, radicalmente, o posterior cenário da Guerra Fria.
E eu, cá com os meus botões, fico pensando o que significa este tipo de declaração.
Trata-se de um triste lamento ideológico por parte de alguém que ansiaria ver toda a Europa sob a bota de Stálin? Ou é puro exercício especulativo, no melhor estilo "What If...?" - o novo gênero literário que vende às turras ao inverter, hipoteticamente, os principais episódios históricos?
Pergunta não menos importante: que devaneio é este de desejar que uma Europa invadida e semi-destruída tivesse "um pouco mais de paciência" ? Quer dizer que, enquanto tanques nazistas desfilavam pelas ruas de Paris e milhares de judeus eram assassinados nos campos de concentração do Fürer, alguém deveria ter se erguido e gritado " Agüentem aí, pois os russos estão chegando!"?
A verdade é que, por maior que seja o contorcionismo intelectual, este tipo de declaração acaba sempre evidenciando seu tedioso cunho ideológico. Às empedernidas viúvas de Stálin, é doloroso aceitar que os americanos tenham cruzado o Atlântico para salvar uma Europa já completamente sem fôlego militar ou econômico. Mais doloroso ainda, encarar que este mesma Europa só se ergueu graças à toneladas de dinheiro que os bancos norteamericanos despejaram em sua economia no período pós-guerra.
Que este descabido ranger de dentes não possa mudar a história, é motivo de alegria para quem acredita na liberdade. Aos demais, sugiro que continuem esperando os russos. Quem sabe um dia eles não chegam?
Pode meter o nariz:
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